Muito além dos três dias de espetáculo em Parintins, a paixão de torcedores por Caprichoso e Garantido atravessa cidades, estados e gerações. Presente na vida de milhares de amazonenses e cada vez mais difundida pelo Brasil, a cultura dos bumbás desperta sentimentos que acompanham o torcedor por toda a vida.
Para muitos torcedores de Caprichoso e Garantido, a escolha por um dos bois nasce ainda na infância e atravessa gerações. Outros, porém, descobrem ao longo do caminho que pertencem ao lado oposto da arena e decidem mudar de bumbá em uma das manifestações culturais mais marcantes da Amazônia.
Na ilha, uma frase ajuda a explicar essa relação: “não é você quem escolhe o boi, é o boi que escolhe você”. Para alguns, a expressão pode soar apenas como uma brincadeira. No entanto, para quem vive o Festival, ela traduz uma conexão que muitas vezes desafia a lógica.
Se no futebol a troca de time costuma gerar estranhamento entre torcedores, no Festival de Parintins a situação não é muito diferente. No universo bovino, a escolha entre Caprichoso e Garantido costuma acompanhar o brincante por toda a vida e, muitas vezes, é herdada dentro da própria família. Por isso, quem decide atravessar a arena simbólica que separa azul e vermelho quase sempre precisa lidar com brincadeiras, críticas e questionamentos.
Mas o que leva alguém a trocar de boi e passar a defender aquele que um dia foi visto como rival?
Para responder a essa pergunta, o EM TEMPO conversou com torcedores que desafiaram a tradição e decidiram mudar de lado. Entre histórias de pertencimento, transformação, reencontros e até experiências difíceis de explicar, eles revelam os motivos que os levaram a trocar de bumbá.
Três histórias, um mesmo sentimento
Embora as trajetórias sejam completamente diferentes, todas têm um ponto em comum: a decisão de mudar de boi nasceu de experiências marcantes, capazes de transformar a maneira como cada personagem passou a viver o Festival de Parintins.
“Foi um processo de cura”

Durante boa parte da vida, o jornalista Arquipo Góes acreditou que sua história seria para sempre ligada ao Caprichoso. A paixão pelo boi azul nasceu ainda na infância, influenciada principalmente pela mãe e pelas toadas que marcaram gerações de torcedores.
Entretanto, a vida acabou conduzindo o jornalista por um caminho inesperado.
Em 2024, enquanto enfrentava um momento delicado após o fim de um relacionamento e questões emocionais que o deixaram abalado, ele aceitou o convite de um amigo para conhecer o Curral do Garantido, em Manaus.
A partir dali, tudo começou a mudar.
Uma escolha construída aos poucos
“Ali comecei a perceber um sentimento diferente, uma sensação de acolhimento, humildade, união e uma conexão muito forte com as toadas e os poemas apresentados pelo boi vermelho”, relembra.
Ainda assim, ele não tomou uma decisão imediata. Durante quase um ano, frequentou eventos dos dois bois e tentou entender o que realmente sentia.
Depois de meses de dúvidas, a resposta veio apenas durante o Festival de Parintins.
“Foi uma decisão difícil. Continuei acompanhando os dois bois por muito tempo. Só quando cheguei ao Festival tive a certeza de qual era o meu caminho.”
A mudança provocou resistência entre familiares e amigos. Muitos tentaram convencê-lo a permanecer no Caprichoso. Outros reagiram com brincadeiras. Com o tempo, porém, a decisão passou a ser respeitada.
Um reencontro consigo mesmo

Hoje, Arquipo acredita que a mudança teve pouco a ver com rivalidade e muito mais com transformação pessoal.
“O Garantido representou para mim um processo de cura e de reencontro comigo mesmo. Foi quando percebi que poderia fazer minhas próprias escolhas e seguir aquilo que realmente fazia sentido para minha vida.”
Atualmente, ele integra a comunicação do Comando Garantido Manaus e define sua relação com o boi da Baixa do São José em uma palavra: pertencimento.
“Existe um ditado muito forte dentro da cultura bovina: não é você quem escolhe o boi, é o boi que escolhe você. Foi exatamente o que aconteceu comigo.”
O caminho de volta para casa

A história do coreógrafo Denny Sullivan seguiu uma trajetória diferente. Ao contrário de quem deixou um boi para trás, ele acredita ter retornado às próprias origens.
Um retorno às raízes
Nascido em Manaus, criado em Parintins e influenciado pela família paterna, Denny cresceu cercado pelo universo do Caprichoso. A infância foi marcada pelas cores azul e branca, pelos eventos do boi e pela paixão compartilhada dentro de casa.
Depois, o contato com o Garantido veio anos mais tarde, já em Juruti, no Pará, onde passou boa parte da adolescência e da vida adulta.
“Conheci o Garantido por influência dos amigos. Um deles era o Sebastião Júnior, que se tornou levantador de toadas do boi. Acabei me aproximando daquele universo.”
Durante alguns anos, ele passou a defender o boi vermelho. No entanto, o destino ainda reservava um reencontro.
Foi então que, em 2017, Denny voltou ao Caprichoso ao assumir o trabalho como coreógrafo de itens da atual cunhã-poranga Marciele Albuquerque, com quem já havia trabalhado anteriormente em Juruti.
“Retornei ao boi que, de fato, sempre foi meu desde criança. O Caprichoso era o meu brinquedo de infância e continua sendo o boi que me encanta, emociona e me faz querer viver esse festival todos os anos.”
Mais do que um trabalho

Segundo ele, a família recebeu a decisão de forma natural.
“Mesmo quando eu era contrário, minha família nunca deixou de me receber bem para passar os festivais. Hoje falamos a mesma língua novamente e tenho apoio total por estar de volta ao azul.”
Além disso, ocupando uma posição de destaque nos bastidores do Festival, Denny afirma que sua relação com o Caprichoso ultrapassa qualquer função profissional.
“Hoje eu posso dizer que não trabalho no Festival. Eu vivo o Festival. É uma experiência única ajudar a construir um dos maiores espetáculos da Terra.”
“Quando ouvi aquela toada, comecei a chorar”

Até poucos anos atrás, o jornalista Kallebh Pinheiro praticamente não tinha relação com o Festival de Parintins.
Em 2024, durante uma viagem a Barcelos, assistiu a uma das noites da festa pela televisão. Na ocasião, uma amiga perguntou qual era o seu boi. Sem conhecer profundamente o universo dos bumbás, respondeu que era Caprichoso.
Durante meses, acompanhou conteúdos do boi azul, participou de eventos e acreditava ter encontrado seu lugar dentro da rivalidade.
Mesmo assim, havia algo curioso.
“Mesmo dizendo que era Caprichoso, eu não conhecia praticamente nenhuma toada do boi. Em compensação, percebia que já sabia várias do Garantido.”
A emoção de uma toada
A virada aconteceu em 2026, quando decidiu conhecer o lançamento do álbum do Garantido, em Manaus.
“Eu não tinha expectativa nenhuma. Mas quando começou a toada ‘Tudo depois dessa noite vai ser diferente’, eu comecei a me arrepiar inteiro.”
Naquele momento, a emoção tomou conta.
“Olhei para os fogos no céu e comecei a chorar. Meu coração disparou. Eu nunca tinha sentido aquilo antes.”
O boi escolheu o torcedor
Além disso, nos dias seguintes, a experiência continuou ecoando. Um sonho envolvendo o boi vermelho e uma série de acontecimentos que ele considera marcantes reforçaram a sensação de que havia encontrado seu verdadeiro lugar dentro do Festival.
“O principal motivo que me levou ao Garantido foi descobrir que talvez eu já pertencesse a ele. Por algum tempo pensei que era Caprichoso, mas entendi que o Garantido havia me escolhido.”
Por um lado, a decisão provocou críticas de alguns amigos ligados ao boi azul. Em outro, também trouxe acolhimento e novas conexões dentro da galera vermelha.
Hoje, contudo, ele resume sua relação com o boi da Baixa em uma mistura de pertencimento, emoção e transformação.
“As pessoas dizem que o Garantido cura onde dói. Eu vivi isso. Pode parecer estranho para quem está de fora, mas quando o boi te escolhe, você simplesmente entende.”
Muito além da troca de cores
Para quem observa a rivalidade de fora, mudar de boi pode parecer apenas uma troca de preferência. Na cultura dos bumbás, porém, a decisão costuma carregar significados muito mais profundos.
Assim, as histórias de Arquipo, Denny e Kallebh mostram que a relação entre torcedor e boi passa por sentimentos, memórias, encontros e transformações que nem sempre podem ser explicados pela lógica.
Enquanto Arquipo encontrou acolhimento em um momento difícil, Denny voltou para as cores que marcaram sua infância. Já Kallebh acredita ter vivido um reencontro com um sentimento que sempre esteve presente, mas que só se revelou anos depois.
Por fim, embora tenham percorrido caminhos diferentes, os três chegaram ao mesmo destino: em uma manifestação cultural construída sobre paixão, pertencimento e tradição, nem sempre é o torcedor quem escolhe o boi.
Em Parintins, como gostam de dizer azulados e encarnados, é o boi que escolhe você.
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