Durante muito tempo, estar presente na vida de um filho significava saber onde ele estava, com quem saía, o que fazia na escola e a que horas voltaria para casa. Hoje, parte importante da infância e da adolescência acontece em lugares que não têm endereço físico: jogos, redes sociais, vídeos, grupos de conversa e plataformas digitais. A presença paterna, por isso, também precisou aprender a atravessar as telas.
Isso não significa vigiar cada clique ou dominar todas as tecnologias. Significa conhecer um pouco desse universo. Saber quanto tempo o filho passa conectado, o que costuma assistir, quais jogos prefere, quem acompanha nas redes e como reage ao que encontra ali.
Um estudo de Sari e Yalçın (2024), com 464 pais de crianças pequenas, mostrou relações entre os hábitos digitais paternos, o uso de telas pelas crianças e aspectos do desenvolvimento infantil. O trabalho reforça algo simples, mas importante: os pais também participam da construção dos hábitos digitais dos filhos.
E talvez esse seja um dos pontos centrais da discussão atual. Quando falamos em tela, ainda é comum perguntar apenas “quantas horas?”. Mas a ciência tem mostrado que essa pergunta, sozinha, é insuficiente. Uma ampla revisão de Mallawaarachchi e colaboradores (2024), com 100 estudos e mais de 176 mil participantes, mostrou que o conteúdo, o contexto de uso e a presença de um adulto também importam. Conteúdos inadequados à idade e determinados usos de tela em rotinas familiares apareceram associados a piores indicadores, enquanto o uso compartilhado entre adulto e criança mostrou associações positivas em alguns desfechos cognitivos.
Talvez, então, além de perguntar quanto tempo o filho ficou no celular, seja preciso perguntar também: assistindo a quê? Jogando o quê? Com quem? E o que ele entendeu daquilo que viu?
Essa presença pode acontecer de maneira muito simples. Assistir a um vídeo junto, pedir que o filho explique um jogo, conversar sobre um influenciador que ele acompanha ou perguntar o que achou de algo que apareceu na tela. Pequenas conversas ajudam a transformar o ambiente digital em um espaço menos solitário.
Uma meta-análise de Tan e colaboradores (2025), que reuniu 88 estudos, encontrou relações favoráveis entre formas positivas de mediação parental e o bem-estar digital de crianças e adolescentes. O dado é importante porque desloca a discussão do controle absoluto para a orientação, o diálogo e o acompanhamento.
Acompanhar não é invadir. Proteger também não significa criar medo. Crianças e adolescentes precisam aprender, pouco a pouco, a reconhecer riscos, fazer escolhas e pedir ajuda quando algo os deixa desconfortáveis. Para isso, precisam saber que podem conversar sem que a primeira resposta seja apenas uma bronca ou a retirada imediata do aparelho.
O pai não precisa conhecer todas as redes, tendências ou jogos. Mas pode conhecer o filho que está diante daquela tela. Na vida digital, assim como fora dela, presença continua sendo interesse, vínculo e disponibilidade. Talvez a tecnologia tenha mudado os caminhos da infância, mas não mudou uma necessidade essencial: ter adultos de confiança por perto.
A tecnologia mudou parte da infância, mas não mudou o essencial: filhos continuam precisando de pais que se interessem pelo seu mundo, inclusive quando esse mundo também acontece atrás de uma tela.

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