Após um mês sem escrever um parágrafo sequer, estava lendo uma entrevista do Tom Cruise – que se você não souber quem é, deve ser porque não vive nesse planeta – em que ele falava de seus 64 anos e compromisso com o trabalho. Apesar de ser uma pessoa diferente, para não chamar de estranha, percebi o quanto concordo com sua maneira de pensar, principalmente em relação ao trabalho e à seriedade com que ele encara seu ofício (guarde essa palavra porque falaremos dela mais à frente) apostando alto e colocando muita coisa em risco como tempo, dinheiro e, sobretudo, a própria vida, pendurado do lado de fora de aviões ou se jogando de uma moto em um abismo, sem dublê. Tudo isso para levar o público ao êxtase do suspense, curiosidade, medo e à alegria do triunfo em pouco mais de duas horas de tela. Talvez por isso seus filmes sejam emocionantes e aguardados.
Em uma parte da entrevista ele disse: “fazer filmes não é o que eu faço; é quem eu sou”. Nessa hora, ele construiu um condomínio em minha cabeça, porque é tão profundo quanto difícil entender onde está o compromisso em fazer qualquer coisa bem-feita para mostrar quem você é, pois tudo pode ficar para depois, quando der para fazer, se houver vontade e se ainda existir interesse. Como bom geminiano, entendo bem o que é mudar de ideia várias vezes até voltar à inicial, mas nunca sem compromisso ou, sobretudo, propósito, afinal, é o que nos move enquanto humanidade. Ou era… sei lá. Hoje é quase impossível ensinar de qualquer maneira que seja (prática, teórica ou exemplificada ao vivo) e esperar que alguém entenda a noção de que você é aquilo que faz e não o que inventa sobre si mesmo para tentar enganar a própria consciência. Se achamos ruim a falta de compromisso profissional, por ser o que todos nós faremos por décadas enquanto estivermos vivos e pagando contas, ainda pior é lembrar que a irresponsabilidade é pessoal, por toda existência enquanto estivermos respirando. Olhe para trás hoje e constate se, até aqui, viveu ou ocupou espaço que outro poderia ter aproveitado melhor.
Em uma das muitas questões de Kardec em O Livro dos Espíritos, a resposta é dada de maneira firme e clara: “toda ocupação útil é trabalho”. Isso rebate qualquer dúvida em relação à vida profissional separada da vida pessoal porque ambas são uma só e, convenhamos, é ilusão pensar que uma é diferente da outra como personagens de novela, pois a primeira sempre interfere na segunda e vice-versa, sem demérito algum. Há muita dedicação no ofício da vida. E por falar em ofício, que mencionei no início, seu significado maior não é obrigação, mas realização. Logo, Confúcio estava certo há três mil anos, quando aconselhou escolher um trabalho que se ame, porque assim não teríamos que trabalhar um dia sequer, assim como também tinha razão quando escreveu que “é falta de coragem saber o que é certo e não o fazer”. Ambas resumem bem um pensamento: quem busca realizar algo acaba aprendendo, em algum momento, que não o faz apenas para si, e sim para uma plateia anônima que espera nada menos que o máximo de nós.
Não estamos trabalhando. Somos o ofício máximo para quem estiver ao redor, sem contrapartidas. Por isso, é obrigação fazer da melhor maneira nas condições em que nos encontramos, com o conhecimento e as ferramentas de que dispomos nesse instante, tendo a certeza de que, quando der certo – e não se der certo – faremos disso um verdadeiro espetáculo, pois a vida é feita de conhecimento e experiência. A primeira inspira, a segunda transforma. Isso não é o que fazemos. É quem somos.

Igor Menezes Cordovil é Gestor de Marketing & Inteligência de Mercado do Grupo FAMETRO, Especialista em Política e Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), e MBA em Marketing, Consumo e Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Contato: [email protected]
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