As cidades de Coari e Barcelos, no interior do Amazonas, vão receber por pelo menos 90 dias reforço da Força Nacional de Segurança Pública para conter o avanço do crime organizado na região. A medida foi oficializada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública por meio da Portaria nº 1.150, assinada pelo ministro Wellington César Lima e Silva e publicada no Diário Oficial da União desta semana.

A operação integra o Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Plano Amas) e autoriza o emprego das tropas federais na calha dos rios Negro e Solimões, em apoio às forças estaduais. O foco é combater o narcotráfico, conter crimes ambientais e garantir a preservação da ordem pública em dois dos principais corredores fluviais da Amazônia.

Segundo o texto da portaria, o contingente seguirá planejamento da Diretoria da Força Nacional, conforme as “necessidades e especificidades” de cada localidade – uma referência direta aos desafios logísticos de uma região onde o acesso é majoritariamente fluvial.

Corredores do tráfico

Coari, às margens do rio Solimões, é rota histórica do tráfico internacional de drogas oriundas das fronteiras com Colômbia e Peru. Já Barcelos, no rio Negro, enfrenta pressão constante de crimes ambientais, como a exploração ilegal de recursos naturais.

O reforço federal chega a um cenário de enfrentamento quase diário ao narcotráfico. Nas proximidades de Coari, a Base Arpão 2, instalada estrategicamente no Solimões, tornou-se peça-chave na interceptação de carregamentos ilícitos.

Somente em fevereiro de 2026, duas operações ilustram a dimensão do problema. Em uma delas, policiais militares apreenderam 26,5 quilos de drogas escondidos em rolos de lona e LED, durante abordagem a uma embarcação que saiu de Tabatinga com destino a Manaus. O material, pasta-base de cocaína e maconha do tipo skunk, gerou prejuízo superior a R$ 1 milhão ao crime organizado. Duas mulheres foram presas.

Dias depois, nas proximidades de Coari, outra fiscalização resultou na apreensão de 47 quilos de skunk escondidos em malas, avaliados em R$ 940 mil. O trabalho contou com o apoio do cão policial Delta, reforçando o uso de tecnologia e inteligência nas abordagens fluviais.

Bases fluviais e resultados

Foto: Divulgação/SSP-AM

Coordenadas pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), as bases fluviais Arpão 2 (Coari), Arpão 3 (Barcelos), Paulo Pinto Nery (Itacoatiara) e Tiradentes (Apuí) operam 24 horas em pontos estratégicos.

Em 2025, as operações integradas causaram prejuízo superior a R$ 209 milhões ao crime organizado, com a apreensão de mais de 2,9 toneladas de drogas, 140 prisões, 20 embarcações interceptadas e 228 mil litros de combustível apreendidos. Desde a implantação das unidades, em 2020, o impacto acumulado ultrapassa R$ 743 milhões em danos às organizações criminosas.

Em 2024, as apreensões superaram 43 toneladas de entorpecentes; em 2025, o volume passou de 38 toneladas. Além do narcotráfico, as bases atuam no combate a crimes ambientais. No último ano, foram apreendidas 8,4 toneladas de carne de caça e pescado ilegal, 370 animais vivos e cerca de 3,5 mil metros cúbicos de minérios extraídos de forma clandestina.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) destacou o impacto direto da atuação fluvial nos indicadores da capital. “O trabalho realizado nos rios do Estado impacta em resultados gerais também na capital. Somente neste bimestre de 2026, a ação integrada e estratégica das Forças de Segurança já superou os resultados alcançados no mesmo período do ano passado”, informou.

Segundo a pasta, os primeiros 45 dias de 2026, já foram apreendidas 8 toneladas de entorpecentes, enquanto no mesmo período de 2025 foram registradas 7 toneladas de materiais ilícito apreendidos.

Guerra nos rios

O envio da Força Nacional também ocorre em meio à escalada da pirataria fluvial. Quadrilhas armadas com fuzis têm atacado embarcações nos rios Solimões, Negro e Madeira, mirando principalmente cargas de combustível.

Em 2025, cinco roubos resultaram no desvio de cerca de 1,2 milhão de litros de combustíveis. Desde 2022, foram 25 tentativas e 17 roubos, totalizando 8,4 milhões de litros subtraídos. Apenas entre outubro de 2020 e dezembro de 2023, o prejuízo chegou a R$ 48 milhões, segundo levantamento do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas (Sindarma).

A reação das empresas incluiu a contratação de escoltas armadas, medida que reduziu os ataques em 2024, mas intensificou os confrontos nos rios.

Em janeiro deste ano, uma tentativa de assalto a uma balsa que seguia para Porto Velho (RO), transportando combustíveis pelo rio Madeira, nas proximidades de Nova Olinda do Norte, terminou com a morte de um suspeito após troca de tiros. Os demais envolvidos fugiram levando como refém o comandante da embarcação, que foi libertado pouco depois e não sofreu ferimentos.

Especialistas apontam que, além de cargas comerciais, drogas e armas também entram na mira de grupos criminosos rivais, que disputam carregamentos vindos de países vizinhos. O resultado é uma dinâmica violenta que afeta ribeirinhos, comerciantes e toda a cadeia logística regional.

Desafio

O Amazonas é o maior Estado do país, com 62 municípios, dos quais cerca de 80% têm acesso apenas por via fluvial. Sem malha rodoviária integrada Manaus conta basicamente com as rodovias BR-319 e BR-174, cerca de 99% da movimentação de cargas depende, em algum momento, dos rios.

Ao posicionar tropas da Força Nacional em pontos estratégicos do Solimões e do Negro, o objetivo não é apenas reduzir índices de criminalidade, mas fortalecer a soberania em áreas sensíveis da floresta.

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