O Dia Internacional das Mulheres é historicamente marcado pela reivindicação de direitos e pela lembrança de que muitas garantias ainda não se concretizaram. Entre elas está o direito básico de viver sem violência. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, segundo o relatório Retrato dos Feminicídios no Brasil, do fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desde a tipificação do crime em 2015, o país já soma ao menos 13.703 mulheres assassinadas por razões de gênero.

A série histórica revela um crescimento de 14,5% nos últimos cinco anos (2021-2025). O estudo alerta que o principal problema já não é a ausência de legislação, mas as falhas na implementação das políticas públicas, especialmente no monitoramento das medidas protetivas e na expansão da rede de atendimento para municípios menores – realidade que também se reflete no Amazonas.

No Estado, o número de feminicídios caiu 31,7% em 2025, com 20 casos registrados. Apesar do recuo, o dado preocupa: a maioria das vítimas não possuía medida protetiva ativa. Além disso, a fragilidade da rede no interior é evidente, já que apenas 5% dos pequenos municípios brasileiros contam com uma Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM).

Em termos de violência doméstica, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) contabilizou 35.037 ocorrências em 2025. Manaus concentra mais de 60% dos casos (22.133), seguida por Japurá (1.617), Itacoatiara (1.113) e Manacapuru (1.064). Embora o total estadual tenha caído 11,6% em relação a 2024, deve-se levar em consideração a subnotificação de casos, especialmente em municípios de difícil acesso.

Para a delegada Débora Mafra, o aumento de 33% nos pedidos de medidas protetivas (que superaram 12 mil solicitações) reflete o fortalecimento da rede de proteção.

“Esse aumento se deve também à coragem das mulheres, incentivadas por uma rede que reforça que elas não estão sozinhas e precisam denunciar”, afirmou.

Mafra ressalta que muitas vítimas enfrentam anos de abusos antes de buscar ajuda e que o maior desafio é a alta demanda. “Precisamos ampliar o número de profissionais capacitados para atender essas vítimas com mais rapidez”, pontuou.

Cultura do Silêncio

A socióloga Paula Ramos explica que os índices no Amazonas são moldados por uma estrutura patriarcal que remonta à colonização.

“Desde o período da colonização, as mulheres indígenas já enfrentavam processos de invisibilidade e silêncio. Isso consolidou a ideia de que a violência contra a mulher pertence ao espaço privado do casal e não deve ser tratada como um problema público”, declarou.

A professora alertou que o feminicídio raramente é um evento isolado; ele é o desfecho de violências naturalizadas e dificultadas pela dependência financeira e isolamento social. Ela destacou ainda o perigo da banalização.

“A cada novo caso, a sociedade se choca, mas passa a tratar essas notícias como algo comum. Essa naturalização cria a ideia de que a violência faz parte da realidade e não pode ser evitada”, completou.

Insegurança dentro do lar

A percepção de medo também aumentou. Segundo pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, o temor de sofrer um estupro subiu de 78% (2020) para 82% (2025).

A pesquisa também revelou o percentual de violência dentro dos lares brasileiros. Entre as vítimas de até 13 anos, 72% foram violentadas dentro de casa. Em metade dos casos, o abusador foi um familiar e, em 1/3 dos relatos, foi um amigo ou conhecido da família. No total, 84% dos estupros foram cometidos por um homem do círculo social da vítima.

Diferente de crimes casuais, o autor do feminicídio é geralmente alguém com acesso à rotina e intimidade da mulher, agindo frequentemente em contextos de término de relação ou resistência à autonomia feminina.

Redes de apoio e Educação

A advogada Amanda Pinheiro, do Instituto As Manas, reforça que o combate eficaz exige integração. O instituto é um aliado e oferece suporte jurídico, psicossocial, capacitação e acolhimento emergencial em parceria com órgãos como a Ronda Maria da Penha.

“A principal ferramenta de combate à violência é a informação. Ela precisa ser difundida desde a educação infantil. É preciso aproximar a comunidade da política pública”, disse Amanda.

Foto: Divulgação / As Manas

Canais de Atendimento no Amazonas

  • DECCM: Atendimento 24 horas.
  • Serviço de Apoio Emergencial à Mulher – Sapem (Sejusc): Acolhimento social e psicológico em Manaus e em municípios como Itacoatiara, Tefé e Parintins.
  • Disque 180: Central federal gratuita para denúncias e orientações, disponível 24h.

A eficácia da denúncia é ilustrada pelo caso da estudante Paula, de 21 anos, vítima do crime de stalking após o término de um namoro. “Ele me perseguia em casa, no trabalho e na faculdade. Eu estava com muito medo. A medida protetiva foi o suficiente para ele nunca mais me procurar”, relatou.

Para ela, a violência psicológica ainda é frequentemente minimizada. “O medo, o constrangimento e a opressão, se não forem levados a sério, podem acabar com uma vida”, finalizou.

O desafio final no enfrentamento à violência de gênero é garantir que a lei seja efetivamente aplicada. Em 16 estados brasileiros, 13,1% das vítimas de feminicídio tinham medida protetiva vigente no momento do crime, o que evidencia a urgência de fortalecer a integração entre os sistemas de segurança pública, saúde e justiça.

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