Como urologista, eu vejo diariamente no meu consultório homens decididos, pais dedicados e casais cheios de planos. No entanto, quando olhamos para a realidade do planejamento familiar no Brasil, um incômodo silêncio masculino salta aos olhos. Os dados do Sistema Único de Saúde (SUS) revelam uma verdade inconveniente: as laqueaduras ainda são mais que o dobro das vasectomias no país. Por que nós, homens, ainda insistimos em terceirizar uma responsabilidade que deveria ser compartilhada? Para entender a gravidade do cenário, basta analisar o primeiro semestre de 2024. No Maranhão, por exemplo, foram registradas alarmantes 18 mil laqueaduras contra apenas 350 vasectomias. Uma disparidade abissal.
No mesmo período, o único estado onde os homens assumiram o protagonismo e as vasectomias superaram as laqueaduras foi Santa Catarina. No panorama geral, enquanto as mulheres enfrentaram 380 mil laqueaduras, os homens realizaram somente 159 mil vasectomias. A tendência desigual persistiu. Segundo dados do Instituto de Planejamento Familiar (IPFAM), em 2025 foram realizadas 118 laqueaduras para cada 100 mil mulheres, contra uma taxa de reles 45 vasectomias por 100 mil homens.
Essa assimetria numérica escancara que o peso da anticoncepção definitiva continua recaindo quase que exclusivamente sobre os ombros femininos. Nem mesmo os avanços legais foram suficientes para equilibrar essa balança. Em 2022, a Lei do Planejamento Familiar (Lei 14.443) passou por mudanças históricas e facilitadoras, reduzindo a idade mínima para a esterilização voluntária de 25 para 21 anos e extinguindo de vez a necessidade de autorização expressa do cônjuge. O caminho legal tornou-se mais simples para ambos, mas o comportamento cultural pouco mudou.
Como médico, eu me pergunto: o que sustenta esse abismo? A resposta une a falta de informação de qualidade, barreiras culturais arraigadas em preconceitos infundados e gargalos estruturais na rede pública, como a escassez de urologistas em determinados estados. Muitos homens ainda associam erroneamente a vasectomia à perda da virilidade ou à disfunção erétil, mitos antigos que precisamos enterrar definitivamente.
Precisamos discutir essa situação com urgência por uma questão de lógica médica e empatia. A laqueadura é uma cirurgia ginecológica invasiva, realizada sob anestesia geral ou bloqueio espinhal, exigindo internação hospitalar e oferecendo maior complexidade e riscos. Já a vasectomia é um procedimento cirúrgico ambulatorial. É simples, rápida, feita com anestesia local e dispensa internação. O paciente volta para casa no mesmo dia.
Dividir o planejamento reprodutivo não é apenas um ato de amor; é uma escolha racional de saúde e cuidado mútuo. Proteger quem amamos também significa evitar que ela se submeta a um procedimento complexo quando nós podemos resolver a questão de forma rápida e segura. Homens, o planejamento da família também é nossa obrigação.

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