Para quem acompanha as apresentações no Bumbódromo de Parintins, a 369 quilômetros de Manaus, o espetáculo dura duas horas e trinta minutos por noite. Nos galpões, ateliês e espaços de produção dos bois Caprichoso e Garantido, porém, o trabalho começa meses antes. É nesses bastidores que artistas, costureiras, soldadores, aderecistas, escultores, empurradores de alegorias e outros profissionais transformam talento, tradição e conhecimento em um dos maiores eventos culturais do país.

Realizado pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, o Festival de Parintins movimenta uma ampla cadeia produtiva ligada à economia criativa, gerando emprego e renda para centenas de famílias. Além disso, a participação no festival atravessa gerações e fortalece vínculos que unem trabalho, identidade cultural e pertencimento.

Histórias de vida construídas nos galpões dos bois-bumbás

No Boi Garantido, a costureira Edna Maria Matos construiu uma trajetória de mais de cinco décadas dentro da agremiação. Ao longo desse período, participou de tribos coreografadas, integrou a Batucada ao lado do marido, atuou como bandeirista e confeccionou chapéus para os ritmistas. Atualmente, é a costureira mais antiga do ateliê e responsável pela costura da barra oficial do boi de arena.

“Eu tenho muito prazer em trabalhar pelo Garantido, não só pelo dinheiro, mas pela emoção. Nós damos o nosso sangue”, afirma.

Para Edna, participar da construção do espetáculo vai além da remuneração. “É emocionante quando vemos o nosso trabalho na arena. Às vezes eu penso: fui eu quem fiz isso. É uma sensação muito especial”, declara.

Do outro lado da disputa, no Boi Caprichoso, Ana Léa Ferreira também carrega uma história familiar ligada ao festival. A relação com o boi começou ainda na infância, na Escolinha de Artes Irmão Miguel de Pascali. Há cinco anos, ela trabalha no ateliê de costura da agremiação.

“Minha avó ensinou minha mãe e minha mãe me ensinou. Até os homens da família sabem costurar. É um conhecimento que foi passado de geração em geração”, relata.

Segundo Ana Léa, o trabalho realizado durante o festival contribui diretamente para a renda familiar. “Muitas pessoas conseguem investir em saúde, comprar equipamentos e se aperfeiçoar profissionalmente. É uma atividade que contribui diretamente para o sustento de muitas casas”, afirma.

Arte transforma talento em oportunidade

A economia criativa impulsionada pelo Festival de Parintins também se reflete na atuação dos artistas responsáveis pelas alegorias e cenários apresentados na arena.

Sócio fundador do Boi Garantido, Afonso Kranio atua há décadas na produção artística do espetáculo. Com experiência em carnavais de São Paulo e trabalhos de escultura e topiaria, ele integra a equipe responsável pela construção dos elementos alegóricos.

“Não só me ajuda, mas também ajuda as pessoas que trabalham ao meu redor, como costureiras, aderecistas e outros profissionais. São pais e mães de família que fazem parte dessa construção”, explica.

No Caprichoso, o artista plástico Mundi Lima acumula 37 anos de atuação no festival. Atualmente, coordena equipes formadas por profissionais de diferentes municípios amazonenses.

“Minha equipe é formada por pessoas de Maués, Autazes e da comunidade Cametá dos Ramos. São artesãos que encontram no festival uma oportunidade de trabalho. A partir dessa experiência, muitos também conseguem atuar em outros eventos culturais ao longo do ano”, afirma.

Segundo Mundi, os impactos do festival alcançam todo o estado. “Hoje o festival movimenta não apenas a cidade, mas todo o Amazonas. Muitas famílias participam dessa cadeia produtiva e encontram nesse período uma importante oportunidade de renda”, destaca.

Kaçauerés e paikicés garantem o funcionamento do espetáculo

Entre os profissionais que atuam nos bastidores estão os trabalhadores responsáveis pela movimentação das alegorias durante as apresentações.

No Garantido, os Kaçauerés desempenham papel importante na logística do espetáculo. Valdenor Santos atua há 30 anos na agremiação e, há 18 anos, coordena cerca de 200 trabalhadores.

“É um trabalho importante para todos nós. São quase 200 homens envolvidos e muitos são pais de família. O festival representa uma oportunidade de renda e uma ajuda importante para o sustento de muitas casas”, afirma.

Além disso, ele destaca a responsabilidade da função. “Temos que cumprir nosso trabalho de forma organizada e com muito compromisso. Existe todo um treinamento para quem chega e vai atuar conosco”, explica.

No Caprichoso, a mesma atividade é desempenhada pelos paikicés. Coordenador da equipe, Jofre Lima acumula 43 anos de atuação no boi e há três décadas lidera os empurradores de alegoria.

“Temos entre 260 e 300 paikicés. São muitas famílias que encontram no festival uma oportunidade de renda nesse período”, destaca.

Jofre ressalta que a função exige organização e conhecimento técnico. “Os artistas entregam as alegorias para nós e somos responsáveis por conduzi-las até a arena. Existe uma grande responsabilidade para que tudo aconteça da forma prevista”, explica.

Festival fortalece a economia criativa do Amazonas

Além de promover cultura e preservar tradições amazônicas, o Festival de Parintins desempenha papel estratégico na geração de emprego e renda. Ao apoiar a realização do evento, o Governo do Amazonas fortalece uma cadeia produtiva que transforma criatividade, conhecimento e trabalho em oportunidades para centenas de famílias.

Mais do que um espetáculo apresentado na arena, o festival movimenta diversos setores da economia criativa, valoriza talentos locais e mantém vivos conhecimentos transmitidos entre gerações. Dessa forma, o impacto vai além dos três dias de apresentações, consolidando o Festival de Parintins como uma das principais cadeias produtivas da cultura amazônica.

(*) Com informações da Assessoria

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