A Amazônia, frequentemente narrada por olhares estrangeiros, acaba de ganhar uma análise crítica produzida diretamente de seu território. O jornalista amazonense Ytallo Byancco, de 40 anos, publicou um artigo científico na prestigiada revista espanhola Cuadernos de Educación y Desarrollo. O trabalho acadêmico origina-se de sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), sob a orientação do professor e pesquisador Adan da Silva, especialista em identidade e cultura regional.

Sob o título “Entre o real, o simbólico e o imaginário: traçados históricos da construção do Festival de Parintins como espaço de mediação cultural”, o estudo investiga o Festival Folclórico de Parintins. Contudo, em vez de focar apenas no espetáculo visual, a pesquisa examina a festa como um potente polo produtor de sentidos e narrativas sobre os povos originários.

Nascido em Manaus, Byancco cresceu imerso na rivalidade entre o Garantido e o Caprichoso. Ainda na infância, o pesquisador percebeu que a disputa ia muito além do folclore; a festa desenhava e repetia visões específicas sobre a população indígena. Posteriormente, sua experiência no jornalismo e a formação na Ufam transformaram essa percepção em investigação científica, reforçando o papel da universidade pública do Amazonas na produção de ciência com alcance internacional.

O grande diferencial da pesquisa está em fugir de análises simplistas. A meta não consiste em rotular as apresentações dos bumbás como certas ou erradas. Pelo contrário, o estudo busca mapear como o evento elabora e dissemina essas imagens. A análise aponta que o festival atua em duas frentes: ao mesmo tempo em que exalta a ancestralidade, ele corre o risco de perpetuar estereótipos, como a romantização e a exotização dos povos indígenas.

Nesse sentido, o artigo se alinha aos conceitos de descolonização do saber, vertente que contesta as visões eurocêntricas e valoriza o conhecimento gerado a partir da vivência local. Trata-se, essencialmente, de dar protagonismo à Amazônia como produtora de pensamento intelectual e científico.

Quem narra a Amazônia na arena?

O foco da investigação gira em torno de identificar a origem dessas representações e os canais por onde elas se espalham na sociedade.

“A pesquisa não é para dizer se é bom ou ruim, mas para entender onde, como e por quem essas imagens são construídas. Elas aparecem nos livros, nos veículos de comunicação e, principalmente, nas linguagens visuais, como televisão, cinema, fotografia e espetáculos culturais”, afirma Byancco.

Dessa forma, ao levar o debate do Amazonas para uma plataforma científica europeia, o estudo comprova a relevância da produção acadêmica nortista. A pesquisa contribui diretamente para desconstruir visões preconcebidas e fixar a região como um polo exportador de educação, cultura e pensamento crítico.

O artigo pode ser acessado na íntegra pelo link: https://ojs.cuadernoseducacion.com/ojs/index.php/ced/article/view/10519

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