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Editorial

Javari, terra de ninguém

A Terra Indígena Vale do Javari, uma área de 85.455 km2, é completamente dominada pelo crime organizado

Foto: Divulgação

Ao todo, são seis mil indígenas, pertencentes a sete etnias, que habitam a perigosa Terra Indígena Vale do Javari, uma área de 85.455 km2, completamente dominada pelo crime organizado cujos barões traficam drogas na chamada Tríplice Fronteira, à vontade, sem encontrar barreiras.

Segundo entidades como o Center for International Forestry Research (Cifor), da Indonésia, apenas no período 2013/2014 os traficantes comercializaram 278 toneladas de carne de caça em feiras e mercados das cidades de Benjamin Constant, Tabatinga, Letícia (Colômbia) e Caballococha (Peru).

O ataque à rica fauna da localidade inclui espécies como pirarucu, tracajá, queixada, anta, onça pintada, veado, macaco, sucuri e outras. Além dos seis mil indígenas, a gigantesca área, equivalente ao território de Portugal, também abriga vários povos que vivem isolados, todos à mercê do tráfico transnacional.

Enquanto o Ministério da Defesa, em Brasília, se ocupa de questões eleitorais em vez de priorizar a segurança nacional nas fronteiras, a base da Funai, no Javari, é tratada à bala sempre que ousa se opor às investiduras dos criminosos. Em 2019, Maxciel dos Santos Pereira foi assassinado a tiros por exagerar no combate à caça e à pesca ilegais.

Em 2000, o Movimento dos Sem Rio, formado por 300 pescadores, detonou as instalações da Funai com coquetéis molotov no Javari. Ambientalistas sustentam que a demarcação das terras locais, mal realizada, acirrou conflitos entre indígenas e ribeirinhos, e jogou estes à sanha dos traficantes.

Os conflitos só fortaleceram os traficantes que cooptaram centenas de ribeirinhos e absorveram os negócios ilegais de madeireiros, caçadores e garimpeiros. O resultado é a terra de ninguém em que se transformou o Javari.

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